terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Futebol | A crise nos torneios estaduais

O recente anúncio da aposentadoria de Ronaldo "Fenômeno" não era o que o Corinthians esperava. Pelo menos não em termos de marketing, já que apenas a presença do jogador (independentemente de sua condição física questionável) era uma garantia de público nos estádios. Aliás, o que cada vez se vê menos nos torneios estaduais por todo o Brasil é torcedor nos estádios. E não adianta culpar a Copa do Mundo de 2014 pelo fato de clássicos como Cruzeiro e Atlético Mineiro serem realizados em cidades longe das capitais, uma vez que alguns dos grandes estádios brasileiros estão fechados para reformas, o esvaziamento dos torneios estaduais é claro e evidente. E aqui, enumeramos alguns pontos que podem explicar essa crise.



Cadê a pré-temporada? A temporada do futebol brasileiro acaba oficialmente na primeira semana de dezembro, com o final da Série A do Campeonato Brasileiro. Os jogadores têm 1 mês de descanso (direito garantido pela lei, diga-se de passagem) mas, após a reapresentação em seus respectivos clubes, têm apenas de 10 a 20 dias para se prepararem pra mais uma temporada desgastante de futebol, quando o ideal (e adotado há muito tempo pelos clubes europeus) seria de 30 a 40 dias de preparação.

Nas condições atuais, é evidente que os grandes clubes do Brasil demoram demais para engrenarem nos torneios estaduais. E com um agravante: mal começa o ano e os clubes já jogam 2 vezes por semana, o que apenas retarda o processo de condicionamento físico dos atletas, além de aumentar o risco de lesões ao longo da temporada. Logo, a probabilidade de que ocorram jogos de nível fraco no começo do ano é muito grande. E assim, o interesse dos torcedores em ver esses jogos, seja no estádio ou na televisão, diminui. É nessas horas que a tal da "renda do jogo", às vezes desprezada pelos grandes clubes, faz falta no balanço anual desses mesmos clubes.

Descaso com os clubes do interior. É sabido que todas as federações estaduais de futebol, sem exceções, privilegiam os chamados "clubes grandes" em detrimento dos chamados "clubes pequenos", geralmente localizados no interior dos Estados (o que já é uma dificuldade em termos de logística para tais clubes, ainda mais jogando 2 vezes por semana).

Além do apoio financeiro quase nulo de suas respectivas federações, os "pequenos" sofrem com tabelas claramente direcionadas para beneficiar os "grandes".
Como exemplo, podemos citar o Campeonato Paulista, em que cada um dos 20 clubes joga 19 partidas na fase de classificação, sendo que Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos jogarão pelo menos 10 partidas como mandante, num claro desequilíbrio técnico.

E o que resta aos "pequenos"? Cobrar preços absurdos nos ingressos como vem ocorrendo em partidas sediadas por clubes do interior durante o "Paulistinha" deste ano. A situação no Brasil é tão triste que times uma vez tradicionais como XV de Piracicaba e Ferroviária (SP), América (RJ) e Santa Cruz (PE) passam por crises financeiras sem precedentes. Outros "pequenos" como Grêmio Prudente e Americana (ex-Guaratinguetá) já se entregaram aos caprichos de empresários que pensam apenas em usar tais clubes como vitrine para seus jogadores. Obviamente, com a conivência das federações.

Calendário inchado. Além de começarem a temporada muito cedo, os clubes são sujeitos a um número excessivo de jogos: não são raras as vezes que os clubes jogam 2 vezes por semana dentro de um mesmo torneio regional. Mas o que realmente incomoda é o número de jogos que um time tem que fazer para ser campeão de um estadual. Em São Paulo, por exemplo, cada time joga em 19 datas (mesmo número de jogos do primeiro turno do Brasileirão) para definir sua classificação na fase final e jogar, no máximo, mais 4 partidas para ser campeão, totalizando absurdos 23 jogos em cerca de 4 meses.

A título de comparação, um time que participa da Taça Libertadores da América precisa jogar apenas 14 partidas para chegar ao título e, para ser campeão da Copa do Brasil, joga-se de 10 a 12 partidas. E não se discute a importância destes dois torneios em relação aos estaduais. Uma diminuição drástica do número de jogos ajudaria os torneios estaduais a ficarem mais competitivos e atraentes, já que todo jogo seria importante, mesmo numa fase de classificação.


Televisão, federações estaduais, dirigentes e CBF. A Rede Globo, detentora exclusiva dos direitos de transmissão dos estaduais, não abre mão da audiência do futebol. Nem que para isso tenha que inchar o calendário do futebol nacional, submetendo os torcedores a assistirem jogos nos estádios em horários ridículos como 22 horas às quartas-feiras (para a TV aberta) e 19 horas nos domingos (para o SporTV). Num País em que a segurança pública é um desastre e o transporte coletivo encerra suas atividades próximo da meia-noite e é praticamente inexistente aos domingos, isso é inaceitável.

E o que as federações estaduais e dirigentes de clubes fazem? Defendem os direitos do torcedor, como deveriam fazer? Não, muito pelo contrário: defendem seus próprios interesses, uma vez que a televisão paga altas quantias de dinheiro para ter os direitos de transmissão. Assim, é muito fácil deixar o torcedor de lado. Para piorar, quando se tem a chance de mudar esse cenário, nada se faz: os vereadores de São Paulo aprovaram um projeto de lei que proibia a realização de jogos às 22 horas na cidade, mas não apenas o prefeito Gilberto Kassab vetou o projeto como os próprios vereadores, após uma conversa amigável com os representantes da Rede Globo, dirigentes dos principais clubes paulistas e o presidente da Federação Paulista de Futebol, Marco Polo Del Nero, trataram de arquivá-lo, alheios à vontade da população paulistana que era, em sua grande maioria, a favor do projeto.

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) também é responsável pela crise dos estaduais, pois não respeita as chamadas "datas FIFA", nas quais os clubes são obrigados a liberar seus atletas para jogarem em suas respectivas seleções, seja em amistosos ou em competições oficiais. Na Europa e em outros países, as competições locais são suspensas nessas datas. Mas aqui no Brasil, a coisa é bem diferente: além de não suspender os estaduais e outros torneios, a CBF permite que os clubes sofram com as ausências de seus principais jogadores (como veremos muitas vezes em 2011 com o Santos, que ficará desfalcado de suas estrelas, Neymar e PH Ganso, em muitos jogos durante a temporada).



O problema tem solução ?
Vamos focar no Campeonato Paulista, já que é o que conhecemos melhor. Quem quiser sugerir opções para campeonatos de outro estados, a caixinha de comentários é sua.

Há algum tempo, o Campeonato Paulista tinha apenas 12 times, de forma que 15 jogos definiam o campeão (11 na primeira fase, mais 4 na semi-final e na final), dando mais 1 mês de pré-temporada para os grandes e, por que não, para os pequenos também.

Se essa solução não fosse a ideal, existem várias outras opções que poderiam ser até mais interessantes e as enumeramos abaixo:

- Campeonato Paulista sem os grandes (e quem mais estiver na Série A) até as quartas-de-final e aí, os grandes entraríam para a disputa do título em 2 quadrangulares só de ida (seriam 6 jogos), fazendo com que existisse até a possibilidade de incluir os times da Libertadores na Copa do Brasil (o que, sem dúvida, seria muito mais justo), uma vez que apenas no Brasil, os times do torneio continental não participam da Copa de seu país.

- Torneio Rio-São Paulo com 12 clubes (com ascensão e rebaixamento), "unificando" os campeonatos e dando mais "grandes" ao torneio, aumentando a visibilidade e o interesse.

- Adotar a excelente sugestão de calendário adotado pelo Ubiratan Leal, no blog Balípodo.com.br, para os campeonatos nacionais e estaduais .


Os campeonatos estaduais vêm definhando e os clubes pequenos se apequenando mais ainda. Precisamos de uma solução antes que todos morram e apenas sobre a história.

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